sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O SEQUESTRO DA TRANSCENDÊNCIA - CARLOS SEPULVEDA


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Carlos Sepúlveda

UM MUNDO DESENCANTADO

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       Uma cultura secularizada, como ocorreu na cultura ocidental, é um caso único. Desde o limiar do século XII, os europeus foram desconstruindo a tradição metafísica do mundo antigo. A culminância deste percurso aconteceu no século XVIII, o iluminismo.
       Durante mais de 10 mil anos, as culturas que deixaram registro letrado desenvolveram uma explicação do mundo a partir de uma referência fora do próprio mundo. Esta exteriorização designava, sobretudo, uma alteridade como uma construção mental coletiva, fundada numa espécie de senso-comum, a (doxa) dos gregos, a ideologia, no sentido de Marx, que se consolidava no logos), na força da palavra, verbo ou discurso.
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       Mundo é uma dimensão que comporta quatro modalidades.
       Mundo1,formado pela natureza ( phusis) que pré-existe ao homem e no qual mundo ele é atirado, enquanto espécie. Nesse mundo, sem a diferença ontológica, é o homem apenas e somente um animal frágil e indefeso.
       Mundo2 é a interioridade, aquilo que constrói a subjetividade, que os antigos não conheceram, mas suspeitaram, como no mito de Narciso. É o mundo sutilmente valorizado pelo cristianismo para o qual a culpa expressa o reconhecimento de um território sempre incompleto e insatisfatório, mundo de murmúrios íntimos e insuspeitados para o outro.
       Mundo3, mundo da intersubjetividade, a expressão das sociabilidades. Trata-se da vida pública ou comunitária, vida prática construída pelas relações entre sujeitos, regulada e regulamentada pela lei (nomos), ponto máximo do processo civilizatório no qual o homem se liberta das pressões da barbárie. Está descrito no conteúdo da tragédia grega.
       Há ainda o Mundo4, a transcendência, que constitui a possibilidade humana de lidar com a finitude. É este o mundo das religiões, da construção da dimensão espiritual. Este foi o mundo seqüestrado de nós, ocidentais, especialmente a partir do século XVIII.
       Se Deus não existisse, tudo seria permitido, pronunciou Dostoievsky do fundo de seu desamparo. Foi uma primeira constatação da progressiva miséria moral da modernidade.
3
       A secularização promovida pelo inevitável avanço da Naturwisenschaft ( ciência da natureza) é o corolário da proposição antevista por Bacon na fórmula saber-poder. Tratou-se de uma epistemologia interessada no domínio da natureza, no dispositivo natural em cumprir o destino de servir aos projetos de domínio humano sobre a natureza. As ciências se apropriaram do direito de verdade e da vontade de poder e a isto chamou-se, não sem uma boa dose de arrogância,Iluminismo, Aufklaerung, Esclarecimento.

Mundo1, antes um lugar de abrigo e expectante revelação é, então, uma máquina funcional, recolhida na espreita do misterioso, mas pronta para ser violada na plenitude  pretensiosa da Razão.
Mas, que formidável espetáculo de inteligência, de cooperação geracional. Mas que reverência assombrada ante a decifração matemática da vida. Pequenos gestos cotidianos e prosaicos, como um simples lavar de mãos, duplicaria a expectativa de vida e dobraria a taxa de natalidade. Pasteur dixit.
Uma avalanche em que sucessos mundanos enclausuram a razão ( ou seu contrário), porém, de todo modo, nascia um outro modo de viver: a técnica como ideologia.
Secularizaram-se as relações homem-natureza, encerrou-se no homem o espetáculo inocente do mundo-da-vida de modo que tudo, totalitariamente tudo, dispunha de uma explicação e uma suspeita.
Até o Mistério não deixou de ser uma véspera, esperando uma explicação científica que o reduziria à folclórica condição de superstição. Logo o Mistério que sempre guardara em si um outro modo de ver. Aqui, será reduzido à banalidade do preconceito.
Desencantamento do mundo (Entzauberung), proclamou Weber depois de suas longas tertúlias com os teólogos de Marburg, no intervalo das aulas.
E não se deteve mais o Mensageiro do Apocalipse. Abriu-se a formidável porta do conhecimento antes proibido e banalizou-se o milagre. A profecia de Prometeu acaba de se cumprir e já aponta, na cena moderna, o pós-humano, coisa impensável para uma geração que ainda se abriga na contemplação.
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       As invasões bárbaras promovem, pela segunda vez, no ocidente cristão, a fúria do terror, só que, desta vez, ninguém quer se esconder, fugir, escapar, abrigar-se, ao contrário, o que se pretende é alinhar-se em suas fileiras, levar as vantagens de seus despojos morais.
       Um novo pacto: viver uma vida breve, desde que intensa, inquieta, ruidosa. Experimentar todas as sensações possíveis, habitar paraísos artificiais, desde já-agora. Fundamos a cultura da (Hubris), a cultura do desmedido, do excesso, da arrogância destemperada cujo símbolo mais evidente são os Estados Unidos. A juventude tornou-se um imperativo categórico.
       Tudo, exceto o silêncio ou o encontro de si-consigo, a solidão meditativa, a imensa catedral da reflexão.
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       Mundo2 hesita, não sabe se fala por si ou se deixa falar pelas ciências psi. Ainda vacila sem saber se é substancialmente algo ou se miragem de alguma ordem do discurso. O eu sequer existe, apenas como suspeita pode ser algo.
       Eu, filho do carbono e do amoníaco, conforme Augusto dos Anjos, se dilacera na possibilidade de ser resultado da memória afetiva ou afetada pela ontologia do mal, como dispõe a enclausurada teoria freudiana.
       Freud não explica, interpreta, mas supondo uma censura que sabe o que censurar, logo já é uma consciência da consciência. Então, enclausurada na impossibilidade de ser livre, a consciência não se dispõe como estatuto da liberdade, não é consciência. Se a censura sabe o que censurar, não é censura, já é consciência.
       Até o mundo2, suposto reino recôndito da liberdade, foi colonizado.
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       Mundo3, imagem da Polis (, espaço da comunhão comunitária da partilha cidadã. Houve, sim, um mundo de esperanças no contrato social e na possibilidade da cidadania universal. O comovente apelo de Kant por um cosmopolitismo aberto, baseado nos ideias comunitários da convivência pacífica, ainda representam a pureza de uma transcendência laica. Hanna Arendt nos aponta alguma esperança. Ficou, porém intocável, no ideário edificante de uma suposta moral universal. Por impraticável, é como o sol de Platão que convida à solidão todos aqueles que o contemplam. Detectamos este desencantamento na progressiva deteriorização do político.
       Em todos os lugares, o utilitarismo pertence à barbárie. É ele que recolhe os méritos e os despojos do pensamento, porque o pensamento é ingênuo, não se protege, não é personagem da História Universal da Infâmia, como nos apontou o estupendo Jorge Luis Borges.
       É ele que recolhe o refugo do que sobrou do banquete de Platão. Sim, o Pensamento não se sabe conter, não consegue parar de pensar, só não sabe ser dono do que pensa.
       No entanto, o Pensamento se protegia na transcendência, visto que era ela sua proteção. EraPlatzhalter,o guardador de lugar, a reverência necessária ante a possibilidade do horror.
       Era ele a barreira que não impedia o homem de pensar o impensável. Não vale a pena pensar o que não é arriscado, escreveria Nietzsche do alto de suas inquietações metafísicas.
       Delenda est transcendentia, lema fatal inscrito no coração da modernidade iluminista que, por ignorar a dimensão emancipatória, acabou sendo melancolicamente mais um possível triunfo da barbárie.
MODERNIDADE E CONTRA-MODERNIDADE

1
       As duas modernidades, a emancipatória e a instrumental, se contradizem, engalfinhadas na cena contemporânea. O projeto modernidade expõe-se incompleto (Habermas). Urge, quem sabe, reconstruí-lo.
       Na primeira versão do projeto, a modernidade revelou-se emancipatória, filha dileta da explosão otimista do Renascimento, das leituras diretas das fontes clássicas quando os gregos retornam, triunfalmente, de seu sono forçado. Abre-se, no horizonte do homem do Renascimento, a estrada da ousadia. Como Hamlet, o desespero moderno não é resultado da ignorância ou do desconhecimento, é justo o contrário: a pletora de saber, assim como a angústia hamletiana é produto de seu excesso de saber.. Uma avalanche incontrolável de novos saberes desenha o mundo que é um construto de precisão e de cálculo.
       Também, pela primeira vez, este extraordinário conjunto de saberes (a scientia nuova), as sensibilidades (dolce stil nuovo), o admirável mundo novo (brave new world), o novum organon é a festa do Mundus Novus ( novo mundo )! Tudo é novo.
       Como não deixar-se contagiar pelo otimismo aberto à amplidão da novidade? Como não embriagar-se nesse elogio da loucura?
       Afirma-se por toda parte o destino humano como possibilidade de ver triunfar o domínio da máquina do mundo, embora algumas vozes pendentes e cautelosas pronunciassem seu Restelo. Erasmo nos fala do elogio da loucura e na gaia ciência:  não havendo alegria, a vida humana nem mesmo merece receber o nome de vida.

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       A segunda versão é instrumental. Foi-se construindo insidiosamente a partir da vontade de domínio. Porque, se a ciência é capaz de escancarar a caixa de Pandora da natureza, também é capaz de oferecer meios inesgotáveis de dominação. Saber-poder não consegue deixar de ser poder sobre os outros. É inevitável que todo este extraordinário potencial se transforme em manipulação operacional das vontades, de controle do imaginário.
       A entrada em cena dos cientistas e dos aparelhos de controle ideológico do Estado foi-se refinando, de modo que a razão de Estado se confunde com o estado da razão.
       A partir do século XVIII, a modernidade assumiu uma nova mentalidade. Não mais as oposições entre sagrado e profano, entre divino e humano ou céu e terra. O paradigma da modernidade organizou-se em torno de uma metafísica objetiva: natureza versus cultura.
       Resolvida a questão da condição humana no território do humano ( e não no sobrenatural), tratou-se de saber os limites entre a natureza, tomada como força instintiva, e a cultura, como intervenção humana capaz de produzir civilização.
       A emergência do Novo Mundo, trazendo as narrativas sobre a humanização pré-adâmica, trouxe um outro desafio de maior complexidade e que nos diz respeito, afinal somos colonizados por aquelas visões.
       A assimilação da vida selvagem por parte do sofisticado aparato mental europeu irrompeu na consciência dos intelectuais. O projeto racionalista na ilustração teria de resolver este desafio tão bem dramatizado em Robinson Crusoé de Daniel Defoe.
       As comunidades ameríndias eram a oportunidade de assistir ao começo da humanização. A civilização ocidental dispunha da possibilidade única de contemplar sua própria gênesis.
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       Duas interpretações emergem a partir dessa evidência. De um lado, a visão empirista anglo-saxã que insiste na tese puritana da exclusão do outro. Aqueles selvagens eram a prova inconteste da origem demoníaca da espécie, largados à sanha de seus impulsos primevos, sem a interferência pedagógica da razão. Aqueles brutos estavam destinados à barbárie, porque a espécie é intrinsicamente demoníaca, foi um engano do Deus-Pai. Portanto, o atraso cultural e a ausência de traços civilizatórios confirmavam a superioridade dos puritanos brancos, europeus, cristãos em face da brutalidade primitiva daqueles humanóides. Salvá-los era uma extravagância do mundo civilizado e a salvação exigia, pois, as necessárias condições operacionais como é o caso das missões salvíficas e mercantis, muito mais mercantis que salvíficas.
       A outra interpretação diz respeito à maneira latina e romana de apropriar-se da realidade do Novo Mundo. O mito do bom selvagem, no sentido de Rousseau, está intimamente vinculado a uma teoria contratualista da vida cultural. O primitivo selvagem nas Américas é uma oportunidade única de assistir, presentificadamente (  on line, diríamos hoje) ao nascimento das sociedades pré-adâmicas.
       Aqueles milhões de quase-humanos, vivendo na pureza da inocência, poderiam oferecer à cultíssima europa iluminista, a visão do início. Poderia recolher daquelas sociedades ou grupos humanos o fundamento essencial da humanidade.
       É justamente daí que surgem as teses do jusnaturalismo, isto é, a idéia de que todos somos portadores de certos direitos pelo simples fato de sermos humanos. Montaigne e Rousseau colaboraram para que o conceito de felicidade ultrapasse a condição civilizada.
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       Estudar estas culturas, mesmo através dos relatos dos viajantes, é construir uma etnologia paleocientífica, porém com suficiente capacidade de legitimação. Pois não é o mesmo Rousseau o formulador de uma teoria da alienação?
       Com o aforismo o homem é naturalmente bom, a sociedade o corrompe inaugura-se um novoethos: a valorização do natural, do espontâneo, do intuitivo em oposição ao racional, repressor, civilizatório.
       A natureza é um locus amenus, lugar de repouso, de recuperação da essência do SER, contra a deliberada torpeza do cortesão. O bucolismo da vida campestre é a cura, o lugar das identidades e das autenticidades do homem; a cidade, lugar da cultura, é a representação da perda dessa autenticidade. As representações urbanas são sempre interessadas, portanto, falsas, incapazes de registrar as pulsações do SER em seu recolhimento.
       Ainda uma vez mais é na natureza que se recolhe o ser-do-homem. Na cidade, onde se abriga a divisão de trabalho e os valores de troca, o homem se perde num brutal anonimato e invisibilidade social.
       A par deste roteiro trágico-moderno, subsiste a realidade de o homem ter-se tornado uma peça insignificante e sem valor no admirável mundo novo sem mistério, portanto, desencantado.
4
       Alguns anos antes de sua morte, Martin Heidegger, cujo pensamento circula por estas páginas, pronunciou uma frase enigmática: Nur ein Gott kann uns gereten, só um deus pode nos salvar.
       Não se sabe bem a que ele se referia, mas suas palavras ecoam como um aviso de que a transcendência perdida pode botar a perder nossa precária imanência.

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